Pular para o conteúdo
Mapa da Negociação

Fornecedores e compras

Como planejar concessões sem perder valor

Por Sergio Torres Revisão técnica: Sergio Torres Atualizado em 4 min

Resposta direta

Para conceder sem perder valor, decida antes quanto pode ceder no total, divida em degraus cada vez menores e vincule cada degrau a uma contrapartida usando a estrutura 'se você fizer X, então eu faço Y'. Assim cada movimento sinaliza que você está chegando ao limite e nenhum valor é entregue de graça.

Uma concessão é qualquer movimento em direção à posição da outra parte. Concessões são inevitáveis e saudáveis: sem elas não existe negociação. O problema é a concessão improvisada, feita sob pressão, grande demais e sem nada em troca. Essa é a forma mais comum de deixar dinheiro na mesa.

Planejar concessões significa decidir, antes da reunião, quanto, em que ordem e em troca de quê você vai ceder.

Os três princípios

1. Degraus decrescentes

Cada concessão deve ser menor que a anterior. O padrão comunica, sem precisar dizer, que você está se aproximando do limite. Compare:

Padrão Movimentos O que a outra parte entende
Decrescente R$ 4 → R$ 2 → R$ 1 → R$ 0,50 "Estamos perto do fim"
Constante R$ 2 → R$ 2 → R$ 2 → R$ 2 "Se eu continuar pedindo, ele continua cedendo"
Crescente R$ 1 → R$ 2 → R$ 4 "Pressão funciona, quanto mais aperto, mais ele cede"
Tudo de uma vez R$ 7,50 "Ainda deve haver mais"

2. Nenhuma concessão sem contrapartida

Uma concessão gratuita é lida como sinal de que havia gordura. Além disso, ensina a outra parte que basta pedir. Cada movimento seu deve vir acompanhado de um movimento dela: volume, prazo, forma de pagamento, duração, escopo.

3. A estrutura "se... então"

Formule propostas condicionais, começando pela contrapartida:

  • "Se vocês fecharem contrato de 12 meses, então conseguimos chegar a R$ 96."
  • "Se o pagamento for em 30 dias, então podemos ajustar o preço."

Começar pelo "se" deixa claro que a concessão depende da contrapartida. Dizer "baixo para R$ 96 se vocês fecharem 12 meses" faz a outra parte ouvir só a primeira parte.

Como montar seu plano de concessões

  1. Defina abertura, alvo e limite. A distância entre abertura e limite é seu espaço total de concessão (veja ancoragem).
  2. Divida esse espaço em 3 ou 4 degraus decrescentes, deixando reserva para o fechamento.
  3. Associe uma contrapartida a cada degrau, começando pelas que mais valem para você.
  4. Liste moedas de troca que você pode oferecer além do preço (veja moedas de troca).
  5. Prepare respostas para pedidos de última hora, como a beliscada.

Ferramentas que ajudam

  • Pacotes: negociar várias variáveis juntas, em vez de uma por vez, permite trocar o que vale pouco para você pelo que vale muito (o chamado logrolling).
  • MESO (ofertas múltiplas equivalentes simultâneas): apresentar duas ou três propostas que têm o mesmo valor para você, mas configurações diferentes. A escolha da outra parte revela o que ela mais valoriza.
  • Concessões rotuladas: diga explicitamente o que está cedendo e por quê. Uma concessão que não é percebida não gera reciprocidade.
  • Concessões reversíveis: se a outra parte não cumprir a contrapartida, a concessão sai da mesa.

Exemplo

Números ilustrativos. Uma distribuidora de alimentos em Goiânia negocia com uma rede de supermercados o fornecimento de um produto que custa R$ 100 por caixa na tabela. O comprador quer um desconto e fala em volume de 1.000 caixas por mês.

Plano da distribuidora:

  • Abertura: R$ 100 por caixa
  • Alvo: R$ 92
  • Limite: R$ 88
  • Espaço total planejado até o alvo: R$ 8

Degraus e contrapartidas:

Rodada Preço Concessão Contrapartida pedida
1 R$ 96,00 R$ 4,00 Volume de 1.500 caixas por mês
2 R$ 94,00 R$ 2,00 Pagamento em 30 dias, não 60
3 R$ 93,00 R$ 1,00 Contrato de 12 meses
4 R$ 92,50 R$ 0,50 Exposição em ponta de gôndola no lançamento

Concessão total: R$ 4 + R$ 2 + R$ 1 + R$ 0,50 = R$ 7,50 por caixa (7,5%). O fechamento ficou R$ 0,50 acima do alvo e R$ 4,50 acima do limite.

Receita mensal:

  • Cenário inicial imaginado pelo comprador: 1.000 caixas × R$ 100 = R$ 100.000
  • Se a distribuidora tivesse dado o mesmo desconto sem contrapartida: 1.000 × R$ 92,50 = R$ 92.500
  • Acordo planejado: 1.500 × R$ 92,50 = R$ 138.750, com pagamento em 30 dias, contrato anual e exposição privilegiada.

O preço por caixa é o mesmo nos dois últimos cenários. A diferença está no que veio em troca.

No final, o comprador tenta uma beliscada: "Fecha em R$ 92 e assinamos hoje". Resposta preparada: "Para chegar a R$ 92, precisaríamos de 1.800 caixas por mês. Se mantivermos 1.500, R$ 92,50 é o nosso preço". O comprador aceita os R$ 92,50.

Checklist

  • Defini abertura, alvo e limite?
  • Dividi o espaço em 3 ou 4 degraus decrescentes?
  • Cada degrau tem uma contrapartida específica?
  • Tenho moedas de troca além do preço?
  • Guardei uma pequena reserva para o fechamento?
  • Preparei resposta para pedidos de última hora?

Erro comum

O erro mais comum é fazer uma grande concessão logo no início para "mostrar boa vontade". A intenção é boa, mas o efeito costuma ser o oposto: a outra parte entende que há muito mais espaço e passa a pedir mais. Boa vontade se demonstra com escuta, transparência sobre critérios e flexibilidade nas variáveis certas, não com desconto antecipado.

Outro erro é ceder sem rotular. Você reduz o prazo de entrega, mas não menciona; a outra parte não percebe a concessão e não sente necessidade de retribuir. Diga com clareza: "Estamos cedendo no prazo; em troca, precisamos de...".

Por fim, evite ceder só para fugir do desconforto do silêncio. Uma pausa na negociação não é um pedido de concessão.

Monte seu plano

No Planejador, a etapa de concessões ajuda você a definir degraus e contrapartidas antes da reunião.

Perguntas frequentes

Quantas concessões devo fazer em uma negociação?

Não há número fixo, mas três ou quatro degraus planejados costumam bastar. Mais do que isso sinaliza que ainda há muito espaço e incentiva a outra parte a continuar pedindo.

Devo fazer a primeira concessão?

Fazer a primeira concessão não é fraqueza se ela for pequena, planejada e vier com contrapartida. O problema é ceder sem receber nada ou em degraus grandes.

O que fazer quando a outra parte pede 'só mais um desconto' no final?

Trate como qualquer outro pedido: só ceda com contrapartida. Uma resposta útil é 'posso avaliar, se em troca vocês...'. Se você já está no limite, diga com clareza que o acordo está fechado nos termos atuais.

Dividir a diferença é uma boa concessão?

Só quando o ponto médio é justo e você está próximo do seu alvo. Dividir a diferença cedo, ou a partir de uma âncora extrema da outra parte, costuma deixar valor na mesa.

Sergio Torres

CCNS, PMP, PMI-ACP, PMI-RMP, PRINCE2 Agile Practitioner, PSPO, ASF. Instrutor APMT (Approved Product Management Trainer) credenciado pela PMCert para o preparat...

Curso de negociação: ver detalhes e inscrição (abre em nova aba)

Continue lendo

Dica: experimente “ZOPA”, “reajuste de fornecedor” ou “contraproposta salarial”.