Patrocinador corta 30% do orçamento com o projeto pela metade
Contexto
Uma empresa de serviços financeiros desenvolve uma nova plataforma de atendimento ao cliente. O orçamento aprovado é de R$ 2.000.000 e, no meio do projeto, R$ 1.000.000 já foi executado: a base da plataforma está pronta e a equipe está estável.
O escopo restante tem três módulos (valores ilustrativos):
- Autoatendimento: custo restante de R$ 350.000; economia estimada de R$ 70.000 por mês em atendimento humano.
- Assistente virtual: R$ 300.000; economia estimada de R$ 20.000 por mês.
- Integração avançada com o CRM: R$ 350.000; ganho estimado de R$ 15.000 por mês em produtividade.
Problema
A diretoria financeira determinou cortes em todos os projetos. O patrocinador, diretor de atendimento, comunica à gerente de projetos que o orçamento total cai 30%, para R$ 1.400.000. Restam, portanto, R$ 400.000 para um escopo que custaria R$ 1.000.000. Ele pede "um plano até sexta".
Análise
Interesses
Patrocinador: cumprir a meta de corte sem matar o projeto, mostrar resultado visível ainda neste ano e preservar sua credibilidade perante a diretoria financeira, que aprovou o projeto com base nos benefícios.
Gerente de projetos: entregar algo que funcione, proteger a equipe de um cronograma impossível, preservar a reputação do projeto e evitar ser responsabilizada por uma promessa inviável.
Diretoria financeira: reduzir desembolso no ano sem perder retornos relevantes.
Poder
O patrocinador tem autoridade formal sobre orçamento e prioridades. A gerente tem o poder da informação: só ela sabe, em detalhe, quanto custa cada parte e o que é possível entregar. A diretoria financeira tem a palavra final sobre o valor total, mas tende a reagir bem a números de retorno.
Alternativas
BATNA da gerente: executar o que couber em R$ 400.000 sem negociar prioridades, o que provavelmente resultaria em módulos incompletos. Outra saída seria pedir a saída do projeto, com custo profissional alto.
BATNA do patrocinador: congelar o projeto, perdendo o R$ 1.000.000 já investido sem nenhum benefício, ou aceitar entregas parciais definidas sem critério.
Os números de retorno permitem montar cenários claros:
- Cenário 1 (R$ 400.000): autoatendimento (R$ 350.000) e R$ 50.000 de contingência. Benefício de R$ 70.000 por mês; o investimento restante se paga em cerca de cinco meses.
- Cenário 2 (R$ 650.000): autoatendimento e assistente virtual. Benefício de R$ 90.000 por mês; o acréscimo de R$ 300.000 se paga em 15 meses.
- Cenário 3 (R$ 1.000.000): escopo completo, R$ 105.000 por mês; a integração com o CRM, sozinha, leva mais de 23 meses para se pagar.
Estratégias possíveis
A opção a é a mais comum e a mais perigosa: promete o impossível e transfere o problema para a equipe e para a data final. A opção b é um exagero deliberado para pressionar o patrocinador; se o corte for mantido, a gerente terá de entregar algo que ela mesma declarou fadado ao fracasso, e se for descoberta perde credibilidade. A forma honesta é mostrar o que cabe e o que não cabe. A opção c contorna o patrocinador e cria um conflito político difícil de reverter.
A opção d devolve a decisão a quem tem autoridade, mas com informação suficiente para decidir bem, e ajuda o patrocinador a defender o resultado perante a diretoria financeira.
O que aconteceu
A gerente apresentou os três cenários em uma página, com custo, benefício mensal, tempo de retorno e riscos de cada um. Destacou que o autoatendimento concentrava a maior parte do benefício e que a integração com o CRM tinha o retorno mais lento.
O patrocinador escolheu o Cenário 1 e levou à diretoria financeira uma proposta adicional: liberar o assistente virtual no ano fiscal seguinte, condicionado ao autoatendimento atingir a economia projetada em três meses de operação. A diretoria aprovou.
O autoatendimento foi entregue com dois meses de folga em relação ao prazo original. A economia observada ficou próxima da estimada, e o assistente virtual foi aprovado no ciclo seguinte. A integração com o CRM foi retirada do plano.
Lições
- Diante de um corte, não negocie apenas o valor: negocie escopo, prazo e benefício juntos.
- Apresente cenários com custo e retorno de cada parte; a escolha fica mais fácil e mais defensável.
- Exagerar o impacto para pressionar costuma sair caro; a verdade bem quantificada convence mais.
- Ajude o patrocinador a vender a decisão para cima: ele também está negociando.
- Proponha liberações condicionadas a resultados; elas transformam um "não" em "ainda não".